Apostas
A Suprema Corte do Brasil ouve argumentos divergentes sobre a proibição das apostas
O Supremo Tribunal Federal do Brasil realizou sua segunda audiência pública sobre a proibição das apostas de quota fixa no país em 3 de novembro de 2026. Ministros defenderam a proibição, enquanto clubes, atletas e grupos do setor de apostas alertaram para perdas financeiras, jogo ilegal e prejuízos a contratos e à segurança jurídica. A sessão examinou a justificativa de saúde pública para a proibição, juntamente com as objeções à sua implementação abrupta.
O ministro Luiz Fux convocou a audiência depois que a Medida Provisória 1.394/2026 proibiu a atividade, acrescentando quatro ações a três contestações já existentes à lei das apostas de 2023. As questões incluem segurança jurídica, irretroatividade, proteção da confiança legítima e se foram atendidos os requisitos constitucionais de relevância e urgência para a edição de uma medida provisória.
Fux reiterou sua posição anterior de que não existe direito fundamental à exploração de jogos de azar, mas convocou a segunda audiência para ouvir argumentos contrários e setores afetados pela medida. Segundo ele, as apresentações acrescentaram informações sobre efeitos econômicos, apostas ilegais, crime organizado, direitos dos atletas e segurança jurídica, além do material reunido na audiência de novembro de 2024.
Governo defende intervenção
O ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, defendeu a medida, argumentando que os danos à saúde pública, à segurança pública e às famílias brasileiras justificavam a intervenção do Estado. Antes de concluir que as medidas regulatórias eram insuficientes diante da dimensão do problema, o governo havia consultado os setores afetados e considerado alternativas.
O advogado-geral da União, Jorge Messias, defendeu a constitucionalidade da medida, argumentando que o marco regulatório estabelecido em 2018 e 2023 não havia protegido de forma eficaz a saúde pública, a dignidade humana, a segurança pública nem as famílias. Ele também mencionou os efeitos sobre os orçamentos domésticos, a saúde mental e a vida familiar, especialmente entre pessoas em situação de vulnerabilidade.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que a demanda por atendimento de saúde pública no SUS relacionada ao transtorno do jogo aumentou mais de 200% entre 2018 e 2026 e que 40% das 1,2 milhão de pessoas que solicitaram a autoexclusão das plataformas relataram ter perdido o controle sobre as apostas. O representante do Ministério da Fazenda, Rodrigo Toneto, citou estimativas de que as apostas movimentaram R$ 62 bilhões e de que a probabilidade de inadimplência aumenta quase 40% depois que uma pessoa começa a apostar.
O secretário de Segurança Pública, Francisco Lucas Costa Veloso, afirmou que, entre janeiro de 2022 e setembro de 2026, a atuação das polícias Civil e Federal em casos relacionados a apostas envolveu 236 operações, mais de 480 prisões e 1.600 mandados de busca e apreensão, argumentando que a regulamentação não havia impedido a atividade criminosa. O secretário de Direitos Digitais, Victor Oliveira Fernandes, disse que o Ministério da Justiça solicitou a remoção de mais de 36.000 sites ilegais de apostas entre 25 de setembro de 2026 e 29 de outubro de 2026 e defendeu os mecanismos adicionais de fiscalização previstos na medida.
Clubes e atletas detalham exposição financeira
Os representantes do futebol se concentraram nos acordos firmados sob o marco regulatório. O vice-presidente do Flamengo, Flávio de Araújo Willeman, disse que o clube assinou contratos de patrocínio com duas empresas de apostas conforme a legislação então em vigor e perguntou quem cobriria as perdas decorrentes da rescisão dos contratos. O representante do Fluminense, Matheus Reis e Montenegro, estimou o impacto para o clube em R$ 200 milhões, considerando patrocínios, publicidade no estádio e direitos de transmissão. Os representantes do Botafogo disseram que o prazo de adaptação de 10 dias era insuficiente e que as perdas de patrocínio afetavam a recuperação judicial do clube, o futebol feminino e as categorias de base.
O representante do Cruzeiro disse que a atividade amparada pela autorização de cinco anos de seu patrocinador foi suspensa menos de dois anos depois e questionou o tratamento dado às empresas que pagaram mais de R$ 30 milhões por licenças. Pedro Mendonça, consultor jurídico do Comitê Olímpico do Brasil, afirmou que as transferências de empresas de apostas representavam cerca de R$ 130 milhões, ou 20% do orçamento planejado da entidade para 2027, e alertou que projetos e a preparação de atletas poderiam ser revistos ou cancelados.
Os representantes dos atletas disseram que, por lei, os jogadores têm direito a uma parcela da receita dos contratos de apostas, alertaram para a perda de empregos em clubes menores e argumentaram que um mercado clandestino deixaria os atletas mais expostos a manipuladores de resultados.
Propostas de transição e regulamentação
O Laboratório de Regulação Econômica da UERJ propôs uma transição de 180 a 360 dias caso a proibição seja mantida, com etapas voltadas a contratos, trabalhadores e sistemas de fiscalização. Para a retomada do mercado, sugeriu limites de apostas vinculados ao Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), restrições à publicidade, ampliação da autoexclusão e financiamento obrigatório de ações de prevenção e tratamento por meio do SUS.
O representante da ANJL, Pietro Cardia Lorenzoni, afirmou que os depósitos caíram 32% nos últimos três meses analisados de 2026, em comparação com 2025, defendeu regras mais rigorosas de proteção ao consumidor e criticou a interrupção das autorizações sem indenização. O representante do IBJR, Celso Cintra Mori, disse que o Brasil escolheu a modalidade de jogo regulamentada após anos de debate legislativo e que a mudança abrupta prejudica relações jurídicas de boa-fé e a confiança no sistema jurídico. O advogado da ABERT, Gustavo Binenbojm, argumentou que proibir a publicidade de empresas autorizadas beneficia operadores clandestinos.
O representante do Grêmio diferenciou os cassinos online das apostas esportivas, apoiando a proibição dos cassinos, mas defendendo uma regulamentação rigorosa das apostas esportivas, limites para os apostadores, restrições à publicidade e um período de transição mais longo para os patrocínios.
Para as operadoras e as entidades esportivas, a questão prática vai além de saber se a proibição será mantida: trata-se também de saber se uma eventual resposta judicial levará em conta os períodos de transição, os contratos vigentes e os pagamentos das licenças. Fux afirmou que algumas questões talvez possam ser resolvidas fora do Judiciário e que, se o Supremo Tribunal Federal tiver de decidir, deverá agir com racionalidade e prudência.











